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Mesma Vida Severina

Através do sertão, agreste e zona da mata de Pernambuco, refez-se os passos de Severino, protagonista de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Comparou-se a realidade para se constatar que pouco mudou nos últimos 45 anos.
Refazer os caminhos do retirante Severino, protagonista do auto de Natal "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Melo Neto. Esse foi o objetivo de uma viagem ao sertão pernambucano, para verificar, 45 anos depois, como está aquela gente de vida difícil que virou poesia nas páginas do livro.
Há poucas referências dos locais de passagem de Severino na obra. Seu ponto de partida, a serra da Costela, próximo ao território paraibano, é um local fictício, diz Eduardo Pazera, professor de geografia da Universidade da Paraíba. Como início de jornada, tomamos então a nascente do rio Capibaribe, na serra do Jacarará, município de Poção - também nos limites com a Paraíba. O próprio João Cabral, no poema "O Rio", que conta a jornada do Capibaribe até sua foz, também começou a história naquele lugar. De lá, foi só seguir as cidades à margem do rio até Recife.
Parte da jornada foi feita a pé, parte no lombo de mototáxis, jipes-lotação, caminhões, ônibus e tudo o que tivesse rodas.
Francisco Chinu é dono de um pedacinho de terra à beira da nascente do Capibaribe. O rio brota protegido por uma mata e vai escorrendo até formar uma lagoa, turva e espessa, tal qual na foz, em Recife. Graças ao olho-d’água que mantém a terra eternamente úmida, aquele lugar não conhece êxodo. Francisco, nove filhos, está lá há 56 anos. "E meu pai já morava aqui há uns 80."
Sítios e casas de taipa. Por graça dos céus, este ano veio chuva. Chuva para plantar e fazer cultura. Nos últimos invernos, a região via apenas nuvens acumularem-se no céu, sem soltar um pingo sequer de água. "Na época da seca, eu atendia mais de dez casos de crianças com diarréia por semana", lembra com certo alívio Ivonete Carneiro, agente de saúde do povoado de Sobrado. A ação desses profissionais, membros treinados da própria comunidade, foi fundamental para que a mortalidade infantil diminuísse no nordeste.
"- E se somos Severinos/ iguais em tudo e na vida,/ morremos de morte igual,/ mesma morte severina:/ que é a morte de que se morre/ de velhice antes dos trinta,/ de emboscada antes dos vinte,/ de fome um pouco por dia"
Para se ter uma idéia, em São José da Tapera, interior de Alagoas, considerado pela ONU o município mais pobre do Brasil, a taxa era de 147,94 mortes para cada mil nascidos (Angola, há décadas em guerra civil, apresenta 170 para mil). Com a ação dos agentes de saúde, estimativas não oficiais apontam queda da taxa de mortalidade em São José da Tapera para perto de cem. A mesma estimativa pode ser aplicada a todo o sertão e agreste: morrem menos crianças, mas ainda se morre de uma forma vergonhosa.
Segundo Ivonete, a multimistura - concentrado vitamínico para auxiliar em casos de desnutrição - não chegou por lá, o que exige atenção redobrada. Pelo menos em Sobrado, as campanhas de vacinação e educação de mães têm surtido efeito. "Antes, quando chegava maio, as pessoas murmuravam: ‘É mês de morrer criança’. Agora, maio é um mês igual aos outros."
A tranqüilidade da agente de saúde foi trazida pela chuva. Naquela região, felicidade e tristeza são assuntos que têm muito mais a ver com a meteorologia do que com personalidade.
Depois de um ziguezague interminável, com estradinhas de terra precárias e rochas nuas despontando do chão, atinge-se outro povoado, o de Jacu. A seca de 98 e 99 extinguiu o açude que abastecia a região. Os caminhões-pipa não davam conta da demanda. No lugar da água, uma fina camada de pó. Outro problema é o emprego. Muitos jovens abandonam suas casas e seguem rumo a São Paulo para tentar a sorte na construção civil, em fábricas, no comércio ambulante ou em qualquer ocupação que admita mão-de-obra não especializada. Uns guardam algum dinheiro e voltam. Adaílto conseguiu até montar um negócio, uma pequena venda na rua principal. "Boa parte das pessoas fica aqui até o dinheiro acabar." Depois, o fluxo segue em direção ao sul novamente.
Outros não conseguem voltar e ficam para sempre, muitos deles engrossando o contingente de favelados das grandes capitais.
"- O meu nome é Severino,/ não tenho outro de pia./ Como há muitos Severinos,/ que é santo de romaria,/ deram então de me chamar/ Severino de Maria;/ como há muitos Severinos/ com mães chamadas Maria,/ fiquei sendo o da Maria/ do finado Zacarias."
Zacarias contraiu um empréstimo no Banco do Nordeste e não sabe como pagar. Ao contrário do personagem do poema de João Cabral, este não é coronel nem dono de nenhuma sesmaria, mas, sim, de um pequeno pedaço de chão e de umas três cabeças de gado que comprou com o dinheiro emprestado. Os juros são muito altos, e ele não sabe mais o que fazer. Opções até existem: devolver tudo e tocar para São Paulo, contrair outra dívida para pagar a primeira e rezar pela prosperidade (opção, aliás, preferida pela maioria dos pequenos produtores rurais brasileiros) ou simplesmente não fazer nada e esperar os credores tomarem tudo. Afinal de contas, o governo prefere doar cestas básicas (agora sem o leite) a estruturar melhores condições para o crédito agrícola.
E há os que ficam de fora até da esmola governamental e dependem de doações da iniciativa privada. Entre os municípios de Jataúba e Santa Cruz do Capibaribe há um aterro sanitário que serve a moscas, urubus e seres humanos de vários tamanhos e idades. Cláudio Emiliano é um deles.
Trabalhava no corte da cana-de-açúcar na cidade de Goiana, na Zona da Mata pernambucana. Pelo serviço tirava R$ 100 por mês, mas só havia trabalho para seis meses. Para sobreviver na outra metade do ano, começou a catar lixo reciclável no aterro de Goiana. "Mas o prefeito expulsou todo mundo que fazia isso e mandou cercar o lixão." Cláudio veio para Santa Cruz do Capibaribe e resolveu ficar de vez. Construiu uma casa no meio do aterro, com material abandonado no lixo.
"Eu ficava mais doente lá do que aqui." Apesar do cheiro azedo e das moscas que rondam a comida exposta ao ar, ele consegue tirar mais que o dobro (R$ 240) com a reciclagem do lixo do que com o corte da cana.
Há tempos que a agricultura deixou de ser o grande motor daquela região. Cidades como Santa Cruz do Capibaribe e Toritama aproveitaram a entrada de indústrias têxteis em Caruaru e viram proliferar fabriquetas, confecções e outros negócios ligados ao vestuário. Muitos moradores pegavam trabalho terceirizado de empresas maiores, como costurar calças e pregar zíperes e botões. Isso aconteceu há tempos. Hoje, o emprego que já atraiu ônibus de trabalhadores de outras regiões anda em baixa. A pequena Toritama, com quase 18 mil habitantes, vê a cada dia sua favela crescer. Retirantes de outros lugares que vislumbraram na cidade uma possibilidade de prosperar moram em casas de pau-a-pique.
José Clementino da Silva ocupa uma delas, vive de bicos nas fábricas de roupas - quando aparecem -, mas diz que não arreda pé. Mesmo na última seca, quando tinha de pagar a atravessadores R$ 50 por cada 400 litros de água. "Isso para lavar roupa e fazer comida. Para beber, a gente dava 50 centavos para cada lata de água." O dinheiro ganho no serviço literalmente se esvaía.
Os sem-terra .
Toritama é a única cidade, citada nominalmente por João Cabral, que é passagem de Severino em sua caminhada para Recife. O retirante foi ajudar em um enterro de outro Severino, morto à bala por defender um pedaço de terra.
"- E onde o levais a enterrar,/ irmãos das almas,/ com a semente do chumbo/ que tem guardada?/ - Ao cemitério de Torres,/ irmão das almas,/ que hoje se diz Toritama,/ de madrugada./ - E poderei ajudar,/ irmãos das almas?/ vou passar por Toritama,/ é minha estrada./ - Bem que poderá ajudar,/ irmão das almas,/ é irmão das almas quem ouve/ nossa chamada./ - E um de nós pode voltar,/ irmão das almas,/ pode voltar daqui mesmo/ para sua casa."
SEGUE....
Editor/Autor
Nilceu
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